Ensaio #


A visão está em permanente movimento, não é estática, por isso estamos sempre a ver realidades distintas, de tal modo que a nossa relação com o mundo é directamente inventariada pelo movimento da visão. As imagens que daí advêm são sempre imprecisas, não temos propriamente uma certeza de como irão resultar, como tal, recorremos a vários tipos de registo para se fazer acertos e, sucessivamente, ensaiamos aproximações.
Jorge Luís Borges (Ficções) descreve “(…) o vertiginoso mundo de Funes. Este, não o esqueçamos,

era incapaz de ideias gerais, platónicas. Não só lhe custava a compreender que o símbolo genérico cão abrangesse tantos indivíduos díspares de diferentes tamanhos e diferente forma; incomodava-o que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e um quarto (visto de frente). A sua própria cara ao espelho, as suas próprias mãos, surpreendiam-no de todas as vezes. (...). Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, (...).”
Sempre que criamos imagens através dos meios de expressão que temos ao nosso alcance, estamos

a materializar ideias. Os meios de expressão são as ferramentas através das quais as ideias e as emoções adquirem determinada forma visível. Uma ideia só poderá ser materializada se dispuser de um intermediário que a torne visível; a visão, o olho que vê, permite a existência visível daquilo que o olhar comum crê invisível. “Luz, iluminação, sombras, reflexos, cor, todos estes objectos da investigação não são propriamente seres reais: tal como os fantasmas, só têm existência visual. Eles só estão, no limiar da visão profana, não são geralmente vistos.” (Merleau-Ponty).

Os elementos e instrumentos da pintura são, aqui, enunciados através do jogo existente entre a arte e as tão proclamadas mortes da arte. Na realidade, os elementos e os instrumentos da arte são os próprios objectos e temas implicados na morte da arte. A morte da arte esteve sempre relacionada com o aparecimento de novas tecnologias, exteriores à pintura; por outro lado, e em grande parte, só se proclamou morte da arte pelo facto da pintura se sentir lesada no seu modo de operar como manualidade, como execução virtuosa.
Contudo, a fotografia ter-se-á convertido, muito provavelmente, na pintura do século XXI porque o

artista já não precisa de pintar, deixa que a impressora pinte por ele.
Ninguém se espanta pelo facto de um artista encomendar determinado trabalho a um serralheiro, um carpinteiro, etc., mas quando se trata da pintura o caso é diferente, exige-se a técnica, o cheiro, o virtuosismo, a aura artística. Reparem o quanto é virtuosa a impressora a pintar por mim. A arte já não vive do segredo. “Revelar a arte e ocultar o artista é o objectivo da arte.” (Oscar Wilde).


Teixeira Barbosa