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O desenho de cópia.

Resumo da Comunicação no Congresso de Educação Artística, Escola Secundária Alves Martins Viseu, Novembro 2000.

A imitação e a cópia existem associadas à história da imagem; à história da mimésis e da representação, mas também à história do gosto, da estética clássica e ao desenvolvimento do coleccionismo. Na concepção platónica da imagem, a cópia é um efeito de degradação do real, um processo de deformação e de transformação do original. Original, cópia e simulacro são os três degraus de uma disputa e de uma pretensão das imagens que procura rivalizar com a ideia.

Em Aristóteles o problema da imagem não é a ideia ou a verdade mas a verosimilhança, ou seja, o critério de similitude, de conformidade e de conveniência. As imagens produzem não só um efeito do real, como uma compensação subjectiva: a  catarse. O mundo da representação constitui uma terapêutica das paixões, uma atitude contemplativa de fruição e de aprendizagem. Docere et delectare é o programa aristotélico; aprender e fruir através da encenação das acções humanas.

A história do desenho está intimamente relacionada com o mundo das imagens ( a mimésis) e com o exercício de cópia, enquanto meio privilegiado da aprendizagem das artes.  A origem do desenho, narrada por Plínio o Velho, encena o momento passional em que o traçado da silhueta se substitui ao olhar e ao gesto de despedida do ser amado. Copiar, contornar, traçar a sombra, parece constituir uma reserva afectiva, um registo de signos amorosos; uma linha que escavada na superfície das imagens se torna a expressão do desejo e das formas que nela se projectam.

Copiar constitui a experiência e o princípio da descoberta das imagens e das artes. A aprendizagem das artes é por isso inseparável de uma experiência sensível, onde o prazer e o desprazer, a convicção e a decepção caracterizam a componente subjectiva dos processos do desenho. O exercício de cópia constitui a dominante da aprendizagem artística, determinando-se no centro da problemática da mimésis e da representação. Aprender a representar significa copiar, copiar imagens, copiar desenhos, copiar modelos, segundo uma linha de transmissão, de tradição (mas também de traição) que tem como referência a arte antiga, ou seja, um ideal da arte, em cujo turbilhão original se desenvolveu o destino da arte e a componente pedagógica do desenho.

A prática do desenho é o lugar da aprendizagem das artes e a cópia o modelo mais eficaz da sua descoberta e compreensão. Disegnare é in-segniare, é ensinar/aprender, na relação com alguém e com alguma coisa: efeito de uma longa, e por vezes, violenta aprendizagem dos signos, porque são os signos, nas suas relações de referência, de sensação e de amor, que forçam à descoberta e ao pensamento da arte.

Vitor Silva
Novembro 2000

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