Carolina Grilo Santos
Hernâni Reis Baptista
Juliana Julieta ...............................................................................
Carolina Grilo Santos
Só as duas
vídeo, cor, som
4' 55''
2025
"só as duas" é um diário de viagem, uma manta de retalhos das impressões que deixam as palavras de quem se ama, uma bóia de salvação. Apresentado em formato de vídeo, este projeto é o resultado da residência artística do projeto To measure currents, you need three basic tools, realizada no Funchal.
Com o apoio da Arditi, MARE-Madeira, OOM e DGArtes.
Especial agradecimento a Teresa Arega.
Lá fora estabelece uma tensão entre o espaço interior e o exterior, servindo-se dessa dualidade para questionar o modo como experienciamos, representamos ou até silenciamos o mundo que nos rodeia. O título remete-nos para esse "fora" que nunca se manifesta visualmente, mas que se impõe através do som — uma malha densa de vozes, gritos e ruídos que irrompe no espaço da imagem.
A imagem permanece fixa: uma figura de costas, imóvel diante de uma parede, acompanhada apenas por um jarro de flores. Esta composição doméstica e pictórica parece imune ao tumulto sonoro que a envolve. A banda sonora, construída a partir de uma assemblage de registos de protestos em várias geografias, compõe uma paisagem acústica global marcada pela urgência, pelo clamor coletivo e pela resistência. O “lá fora” do título concretiza-se, assim, exclusivamente no plano sonoro — um fora ausente da imagem, mas presente como tensão política e simbólica.
A irrupção de um terceiro elemento — um cão que entra em cena e lambe repetidamente a face da figura — introduz um momento de ambiguidade. O gesto é simultaneamente de afeto, distração e perturbação. A figura permanece, ainda assim, indiferente, perpetuando a sua postura resignada.
Criado em 2014, Lá fora adquire hoje uma ressonância renovada, à luz da intensificação dos conflitos armados, das crises migratórias e das tensões sociopolíticas que continuam a marcar o panorama global. A peça pode ser lida como uma meditação sobre a dissociação do sujeito contemporâneo face à violência do real, mas também como uma reflexão sobre os limites da representação e da empatia. Ao encenar a distância entre o espaço privado e os acontecimentos exteriores, a obra convoca uma crítica subliminar às formas de apatia, silêncio e desmobilização que permeiam a experiência contemporânea das imagens e do mundo.
The Immovable Structure
Super8
cor, som
5' 46''
2025
excerpts from: “The Great Punctuation Typography Struggle” by Andrea Dworkin, 1974 - read by Ramsey Tyson
direction, camera, sound, editing by Juliana Julieta
Shot on super8, 100D KODAK Vision 3, color negative. Linearly-processed in ECN-II at ColorLab. Scanned at MONO NO AWARE.
The Immovable Structure é uma curta experimental em Super 8 sobre corpos que resistem e vozes que recusam o silêncio. Filmado durante o protesto anti-TERF em Nova Iorque, em 2022, o filme entrelaça imagens brutas de uma multidão insurgente com a leitura de The Great Punctuation Typography Struggle, de Andrea Dworkin.
Mais do que um registo de protesto, é exposto um mecanismo de dominação mais profundo, invisível e persistente: o das convenções que normalizam a opressão. As formas padronizadas de ser — de género, de linguagem, de comportamento, de desejo — não se impõem apenas através das instituições. São absorvidas no íntimo, infiltrando-se na forma como falamos, nos movemos, nos relacionamos. A estrutura é externa, mas também interior — molda gestos, apodera-se de silêncios, transforma-nos, muitas vezes sem que o saibamos, em agentes da norma.
Dworkin descreve como essas normas tornam a liberdade não apenas improvável, mas impensável. Não há respostas fáceis, nem resistências idealizadas: há antes um embate constante entre o anseio pela verdade e as forças que nos moldam. Sendo que sem presumir a liberdade ela jamais será possível, resistir — mesmo de modo imperfeito, cansado e contraditório — torna-se uma urgência íntima empoderada no coletivo.
Os cânticos—“TERFs vão para casa!” “Mulheres trans são mulheres!”— palpitam na paisagem sonora, insistentes e urgentes, mas presos à gravidade de uma estrutura que resiste à mudança. Um eco de vozes e existências que se recusam a desaparecer—por mais imutável que a estrutura se revele.
(Aveiro,1993) vive e trabalha no Porto. É artista plástica, produtora cultural, gerindo a plataforma Fisga, e co-fundadora o projeto Paralaxe. Tem vindo a explorar o cruzamento da prática artística com conceitos e linguagens científicas sob um ponto de vista especulativo e poético.
Recentemente expôs na Casa Encendida, Sala Picnic e Aragón Park (Madrid), Galeria Nuno Centeno (Porto), CCVF (Guimarães) e Fórum Arte Braga. Destaca-se o Prémio Pedro Fortes para Melhor Primeiro Filme Português na Secção Verdes Anos do DocLisboa, em 2023, com a sua curta metragem by division and differentiation; a participação na exposição coletiva Devenir Isla - Inéditos 2022, com curadoria de Aina Pomar Cloquell para a Casa Encendida, Madrid; e aquisição, em 2023, pela Coleção de Arte Contemporânea da Galeria Municipal do Porto.
É artista visual cuja prática se centra no corpo enquanto lugar de construção simbólica, política e afetiva. Através de escultura, vídeo, instalação e imagem, explora camadas de artificialidade, instinto e ruína, convocando elementos humanos, animais e vegetais. O seu trabalho parte muitas vezes de materiais encontrados ou recuperados, ativando narrativas não lineares que questionam a identidade, a domesticidade e os resíduos da presença.
Artista visual e realizadora que trabalha entre Pintura e Cinema Experimental. Licenciada e Mestre em Pintura. No seu trabalho em pintura a óleo e cinema experimental, explora a fisicalidade dos materiais e processos, investigando uma relação tátil, sensorial, cumulativa e fenomenológica de criar imagens. Os seus filmes foram mostrados no Curtas Vila do Conde, IndieLisboa, Centro de Arte Oliva, festival (S8), Anthology Film Archives, Queer Porto, entre outros.
Partindo do convite da Exteril para 3 momentos de apresentações n’O Poste, as ideias para esta curadoria pretenderam pensar na perspectiva de (isto é a partir de) o corpo, as suas rotinas, a sua pertença ao ecossistema, a sua sobrevivência. Pensar que o corpo é, primordialmente, um verbo.
Cada Momento procura fios de conexão entre as 3 ou 4 participantes que, no entanto, não se agregam de forma estritamente temática. São na verdade vídeos performáticos, todos eles.
No Momento 1 - Diaries of Bodies, os vídeos apresentados revolvem em torno da noção identitária de um corpo situado entre (Rebecca Moradalizadeh); do eu em torno de si, como obsessão que ecoa para outros corpos (Bárbara Fonte); e das posições que o corpo assume na invisibilidade dos quotidianos enquanto mapeia espaços e gestos sem nunca se revelar (Carme Nogueira e Sally Santiago).
O Momento 2 - Earthly Bodies, procura perceber a posição que o corpo ocupa num entorno em desmoronamento, numa procura que se adivinha a qualquer preço para se fundir com a terra (Inês Tartaruga Água); ou para, desesperadamente, abarcar a imensidão de um deserto-origem (Susana Soares Pinto); ou ainda imaginando a possibilidade de entender a floresta, que se esfuma a cada dia, como o lugar de todos os corpos (Gabriela VP).
No Momento 3 - Bodies of Survival, caminhamos para um naufrágio em potência, agarradas ao eco dos afetos (Carolina Grilo Santos); ou, enfrentando uma parede de solidão onde ecoa o caos descontrolado do mundo contrariado apenas pela empatia animal (Hernâni Reis Baptista); ou finalmente, insistindo na luta, os corpos envolvem-se na emergência de um corpo colectivo que tarda em acontecer (Juliana Julieta).
O conjunto de pequenos vídeos não apresenta o corpo enquanto entidade unívoca, mas sim na sua existência fraturada por diversas realidades e emergências, não precisando sequer de se lhe referir de forma direta. Sabemos que é através dos corpos que vivemos o quotidiano, que nos entendemos enquanto parte do mundo, biológico, mineral e artificial, e que dependemos in extremis de uma sobrevivência que é também social.
Gabriela Vaz-Pinheiro é formada em Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, possui o Mestrado Europeu em Cenografia pelo Central St. Martins College e Utrecht School of the Arts, Mestrado em Teoria e Prática da Arte Pública e Design pelo Chelsea College of Art & Design, e Doutoramento por projecto pelo Chelsea College. Leccionou na Central St. Martins College of Art & Design, em Londres, entre 1998 e 2006. Tem exposto em contextos diversos, tendo recebido bolsas de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian, Ministério da Cultura, da Contemporary Art Society e do The London Institute, e recebeu, como artista, o apoio da Direcção Geral das Artes / Instituto das Artes. Possui contínuo trabalho editorial, com múltiplos livros publicados e textos em catálogos. Responsável pelo Programa de Arte e Arquitectura para Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, tem realizado trabalho curatorial com várias colecções institucionais e também em contextos expositivos alternativos. Docente, desde 2004, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, onde dirige o Mestrado em Arte e Design para o Espaço Público e é Membro Integrado do i2ads, Instituto de Investigação em Arte Design e Sociedade.